Wednesday, October 31, 2007
Este é o meu quarto
Na minha máquina fotográfica digital está uma foto que tirei hoje. Documento jpeg número 116. É uma imagem do meu quarto. O colchão no chão, coberta com uma manta amarela. O velho piano em segunda mão em que as crianças desta creche martelam durante todo o ano. O velho piano agora finalmente em paz. Não me atrevo a sequer abrir a tampa para não perturbar o seu sono, que durará enquanto as crianças estiverem de férias. A minha mala branca, comprada numa feira de bugigangas em Berlim, semiaberta junto aos pedais do piano. O globo terrestre, no canto da foto. O globo que as crianças giram para depois para com um gesto súbito, curiosas por saber em que país desconhecido terá aterrado o seu dedo indicador. O globo com todos os países que elas sonham visitar. Durmo todas as noites rodeado de esperança. Para alguém que está prestes a morrer, é o maior dos sofrimentos. Mas o que é certo é que, todas noites, adormeço a sorrir.
Texto escrito por A no seu caderno de capa preta, durante os ensaios de A Morte do Artista, em 2006.
Texto escrito por A no seu caderno de capa preta, durante os ensaios de A Morte do Artista, em 2006.
Wednesday, October 03, 2007
O que queres ser quando já não fores grande?
Gerações e gerações, uma civilização inteira a trabalhar, ao longo dos séculos, para que um dia pudesse libertar-se do trabalho. E, no fim, quando a espécie estava praticamente a libertar-se da necessidade do trabalho, quando a tecnologia, a mecanização, a era digital estavam à beira de libertar-nos, descobrimos que o trabalho se tornou a nossa essência. O trabalho não é o meio de sobreviver, de nos afirmarmos ou de conquistarmos algo. O trabalho tornou-se “nós”. O trabalho é o fim. Trabalhamos para podermos trabalhar melhor. Somos o trabalho que temos e o modo como trabalhamos.
Já não nos perguntamos, como Santo Agostinho, “quem sou eu?”. Perguntamos “o que sou eu?”. E respondemos “contabilista”, “arquitecto”, “técnico de vendas”, “artista”, na desesperada esperança de estarmos a responder de forma objectiva a todas as incertezas, todas as subjectividades da pergunta de Santo Agostinho. Como se vivêssemos condenados à resposta que demos quando éramos crianças e nos perguntaram “o que queres ser quando fores grande?”. Como se o momento em que um adulto nos fez essa pergunta, provavelmente por não ter nada de mais inteligente para dizer, fosse o momento mais importante das nossas vidas. Como se fosse o momento que iríamos recordar na hora da nossa morte.
Eu sou artista. É a minha condição. Não diz muito sobre a minha natureza, mas é a minha condição humana. E mais do que qualquer outra condição, a do artista depende do trabalho. Porque se trata de um ofício e de um não-ofício. Porque o real e a ficção pertencem, no artista, à mesma esfera: a do trabalho. Porque, à diferença de outros, mantenho-me artista, mesmo enquanto durmo, mesmo enquanto como. Sou escravo desta profissão.
Mais do que qualquer outra actividade humana, a arte exemplifica a forma como o Homem se define pelo trabalho. Porque a arte era aquilo de que o Homem poderia usufruir quando se libertasse do trabalho. A arte era o fim último da humanidade. O plano era simples: trabalhamos até já nunca mais termos que trabalhar e depois dedicamo-nos à arte e às “coisas boas da vida”. Este era o plano no tempo em que também se pensava que podíamos fazer a guerra para nunca mais termos de fazer a guerra.
Hoje sabemos que a guerra e o trabalho são a nossa condição. Nós somos a guerra e o trabalho. Mas nesse tempo, pensávamos que, um dia, os únicos a trabalhar seriam os artistas e todos os que produzem apenas e só “as coisas boas da vida”, porque teríamos trabalhado o suficiente para podermos dedicar-nos apenas a usufruir da arte.
Neste tempo, em que somos o nosso trabalho, podemos ainda escapar, de forma pontual, a esta condição. A biologia permite-nos esses instantes de liberdade. Quando nascemos, podemos já ser filhos de um médico ou de uma cozinheira, mas não somos ainda nada. Estamos limpos de condição. Quando morremos, libertamo-nos também da nossa condição. Independentemente da qualidade do mármore na nossa lápide, são da mesma qualidade os vermes que se alimentarão da nossa carne. Na morte somos todos iguais, é costume dizer-se.
Agora, que estou nesta casa, rodeado destas pessoas que aceitaram trabalhar com um quase-morto, chego à conclusão que este projecto é, de forma talvez inconsciente, uma tentativa minha de recusar essa morte totalitária. Na morte, não serei igual. Serei ainda a minha condição, o meu trabalho. Como se o essencial da morte não fosse o meu desaparecimento, mas o acto artístico que a morte pode constituir. A minha morte faz parte do trabalho. Não é uma inevitabilidade da vida. É a forma que escolhi para parar de trabalhar.
Texto escrito por A no seu caderno de capa preta, durante os ensaios de A Morte do Artista, em 2006.
Já não nos perguntamos, como Santo Agostinho, “quem sou eu?”. Perguntamos “o que sou eu?”. E respondemos “contabilista”, “arquitecto”, “técnico de vendas”, “artista”, na desesperada esperança de estarmos a responder de forma objectiva a todas as incertezas, todas as subjectividades da pergunta de Santo Agostinho. Como se vivêssemos condenados à resposta que demos quando éramos crianças e nos perguntaram “o que queres ser quando fores grande?”. Como se o momento em que um adulto nos fez essa pergunta, provavelmente por não ter nada de mais inteligente para dizer, fosse o momento mais importante das nossas vidas. Como se fosse o momento que iríamos recordar na hora da nossa morte.
Eu sou artista. É a minha condição. Não diz muito sobre a minha natureza, mas é a minha condição humana. E mais do que qualquer outra condição, a do artista depende do trabalho. Porque se trata de um ofício e de um não-ofício. Porque o real e a ficção pertencem, no artista, à mesma esfera: a do trabalho. Porque, à diferença de outros, mantenho-me artista, mesmo enquanto durmo, mesmo enquanto como. Sou escravo desta profissão.
Mais do que qualquer outra actividade humana, a arte exemplifica a forma como o Homem se define pelo trabalho. Porque a arte era aquilo de que o Homem poderia usufruir quando se libertasse do trabalho. A arte era o fim último da humanidade. O plano era simples: trabalhamos até já nunca mais termos que trabalhar e depois dedicamo-nos à arte e às “coisas boas da vida”. Este era o plano no tempo em que também se pensava que podíamos fazer a guerra para nunca mais termos de fazer a guerra.
Hoje sabemos que a guerra e o trabalho são a nossa condição. Nós somos a guerra e o trabalho. Mas nesse tempo, pensávamos que, um dia, os únicos a trabalhar seriam os artistas e todos os que produzem apenas e só “as coisas boas da vida”, porque teríamos trabalhado o suficiente para podermos dedicar-nos apenas a usufruir da arte.
Neste tempo, em que somos o nosso trabalho, podemos ainda escapar, de forma pontual, a esta condição. A biologia permite-nos esses instantes de liberdade. Quando nascemos, podemos já ser filhos de um médico ou de uma cozinheira, mas não somos ainda nada. Estamos limpos de condição. Quando morremos, libertamo-nos também da nossa condição. Independentemente da qualidade do mármore na nossa lápide, são da mesma qualidade os vermes que se alimentarão da nossa carne. Na morte somos todos iguais, é costume dizer-se.
Agora, que estou nesta casa, rodeado destas pessoas que aceitaram trabalhar com um quase-morto, chego à conclusão que este projecto é, de forma talvez inconsciente, uma tentativa minha de recusar essa morte totalitária. Na morte, não serei igual. Serei ainda a minha condição, o meu trabalho. Como se o essencial da morte não fosse o meu desaparecimento, mas o acto artístico que a morte pode constituir. A minha morte faz parte do trabalho. Não é uma inevitabilidade da vida. É a forma que escolhi para parar de trabalhar.
Texto escrito por A no seu caderno de capa preta, durante os ensaios de A Morte do Artista, em 2006.
Wednesday, August 08, 2007
As ruínas do futuro

“Os homens crescem sobre as ruínas de si próprios. Essa coisa temível a que chamamos, com toda a leviandade, “pensar na vida”, não é mais que uma visita a uma escavação arqueológica. Visita a ruínas, mais ou menos obscuras, saqueadas ou protegidas, dependendo do que sente o visitante quando se olha ao espelho. Essa viagem ao passado, à memória e ao que nós próprios fomos pode até encher-nos de alegria, mas será sempre uma decoberta da erosão provocada pela passagem do tempo. Será sempre aceitar a decadência”.
“Ao olhar para uma fotografia do meu crânio tirada por um aparelho de ressonância magnética, não posso ver senão ruínas. Como se aquela foto tivesse saído de uma máquina fotográfica inventada que consegue fotografar hoje as ruínas futuras de uma cidade que ainda existe. Como se pudéssemos viajar no tempo e visitar as ruínas que todos seremos e que todas as cidades serão no futuro. E ao olhar esta fotografia do meu crânio sei que estas ruínas, os meus ossos, nunca poderão revelar a felicidade da minha vida. Tal como as ruínas de uma cidade serão sempre e apenas a versão triste e esbatida de uma cidade feliz e viva”.
Textos escritos por A no seu caderno de capa preta, durante os ensaios de A Morte do Artista, em 2006.
Saturday, June 30, 2007
UM ANO DEPOIS
Há cerca de um ano, um artista decidiu realizar aquele que sabia ser o seu último projecto artístico. Em colaboração com o festival Citemor, organizou uma residência artística com outros artistas de diversas áreas para criar essa obra.
Esta residência foi envolta em alguma polémica, tanto pelo estado delicado do artista que dirigiu este projecto como pelo facto de o mesmo ter decidido manter o anonimato, assinando apenas como A. Por motivos de privacidade, o encontro de várias semanas para realizar este projecto foi realizado num local que não foi tornado público. Pelos mesmos motivos, este blogue ficou inactivo e A decidiu não o utilizar para fazer o relato de todo o projecto, como tinha inicialmente previsto.
A última obra de A não chegou a ser criada. No entanto, a residência artística aconteceu. Durante essas semanas, A foi fazendo um resgisto vídeo do trabalho e da vivência em conjunto de todos quantos com ele colaboraram. Das dezenas de horas de gravação que A levou a cabo, foi feita agora uma selecção para compôr um filme que será apresentado pela primeira vez a 9 de Agosto, em Montemor-o-Velho, no âmbito do festival Citemor 2007. Talvez seja esta, afinal, a sua última obra.
Deste período de trabalho, também encontrámos diversos textos escritos por A. É possível que alguns deles estivessem destinados a este blogue. Optámos por ressuscitar este blogue para publicar alguns desses textos durante as próximas semanas.
A MORTE DO ARTISTA
Esta residência foi envolta em alguma polémica, tanto pelo estado delicado do artista que dirigiu este projecto como pelo facto de o mesmo ter decidido manter o anonimato, assinando apenas como A. Por motivos de privacidade, o encontro de várias semanas para realizar este projecto foi realizado num local que não foi tornado público. Pelos mesmos motivos, este blogue ficou inactivo e A decidiu não o utilizar para fazer o relato de todo o projecto, como tinha inicialmente previsto.
A última obra de A não chegou a ser criada. No entanto, a residência artística aconteceu. Durante essas semanas, A foi fazendo um resgisto vídeo do trabalho e da vivência em conjunto de todos quantos com ele colaboraram. Das dezenas de horas de gravação que A levou a cabo, foi feita agora uma selecção para compôr um filme que será apresentado pela primeira vez a 9 de Agosto, em Montemor-o-Velho, no âmbito do festival Citemor 2007. Talvez seja esta, afinal, a sua última obra.
Deste período de trabalho, também encontrámos diversos textos escritos por A. É possível que alguns deles estivessem destinados a este blogue. Optámos por ressuscitar este blogue para publicar alguns desses textos durante as próximas semanas.
A MORTE DO ARTISTA
Tuesday, July 25, 2006
Não pretendo ser o acidente na estrada que leva a que os outros abrandem para observar.
O meu projecto para uma residência artística no festival Citemor suscitou mais interesse na comunicação social do que, à partida, imaginava. Até mesmo uma proposta de um canal de televisão. Isto ainda antes de começar a ser concretizado.
Assim, de modo a salvaguardar a privacidade da residência artística que dará origem à minha última criação, anuncio que ela será realizada exactamente nos mesmo moldes, mas noutro local.
Quero que a minha câmara seja a única presente. A obra que resultar deste projecto será tornada pública e responderá às dúvidas e controvérsias que existirem.
A.
O meu projecto para uma residência artística no festival Citemor suscitou mais interesse na comunicação social do que, à partida, imaginava. Até mesmo uma proposta de um canal de televisão. Isto ainda antes de começar a ser concretizado.
Assim, de modo a salvaguardar a privacidade da residência artística que dará origem à minha última criação, anuncio que ela será realizada exactamente nos mesmo moldes, mas noutro local.
Quero que a minha câmara seja a única presente. A obra que resultar deste projecto será tornada pública e responderá às dúvidas e controvérsias que existirem.
A.

